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sexta-feira, 25 de maio de 2007

grito


conflito
infinito.
consistes?
- és mito,
reflicto,
convicto.

assistes
contrito.
está dito
(mal-dito)

persistes?
medito.
existes
apenas
não-dito.

não vejo
não fito
só ouço
- aflito -
teu grito.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Valquíria


A Valquíria desceu voando junto ao Rio,
e colhe os reflexos das Flores sobre a Água
(antiga Neve derretida da Montanha).
Com eles tece um Colar de Mágoa.

As Flores aguardam ao cair da Noite
a última Brisa… e a quem vão dá-la?
À Valquíria, que saberá conduzi-la
até aos velhos Deuses do Walhalla.

A Valquíria estremece, pressentindo
ao longe, na Noite, um Canto triste.
Estremece, julgando ouvir um Eco amado
na Escuridão imensa que persiste.

Mas tem de partir… esperam-na os Deuses,
a quem jurou até ao fim servir…
Monta o Cavalo Alado e chama a Brisa
mas as Flores em pranto não a deixam partir…

Adormece a Valquíria à beira do regato
do seu cansaço as Flores roubam mais perfume…
Agita-se na Noite a Brisa ainda inquieta,
e ao longe, o Eco repete o seu queixume…

sábado, 14 de abril de 2007

ponte



perdi rumo perdi norte
perdi noites madrugadas
perdi os lances de sorte
perdi as boas jogadas

procurei fazer a ponte
entre dois desconhecidos
subi ao cimo do monte
mas foram passos perdidos

perdi-te sem te encontrar
procuraste outro horizonte
e o rio não pode passar
debaixo da mesma ponte

domingo, 8 de abril de 2007

AmArte

O Artista comovido perante a grandiosidade das Obras antigas
(Fussli)

Amo-te Arte, Deusa, Mãe, Mulher
que iluminas as trevas da humana mente.
Amo-te Arte e não sou sequer
digno de olhar teu rosto resplendente.

De rastos a teus pés sigo como um mendigo
a quem negaram o pão de uma bela pintura.
Debaixo do teu manto procuro um puro abrigo
onde ouça sinfonias quebrando a noite escura.

Arte... sê minha e faz-me teu, antes da sepultura.

Robert 9/4/07

sexta-feira, 30 de março de 2007

solo



Esta insónia intermitente
entre o sonho e o pesadelo

Os meus lábios entreabertos
teu nome breve em apelo

Os meus dedos intangíveis
perdidos no teu cabelo

Este total desconcerto
do teu corpo inconsistente
entre os meus braços desertos

Tua boca, fruto ausente
que desejo incoerente
sobre o meu corpo desperto

Sou praia de branca areia
sou rio da sede que anseia
ser foz da tua nascente

Este amor é para dois...
assim, solitariamente,
sem ter antes nem depois,
é quimera inconsequente...
é ave de asa partida
que não sobe ao transcendente...
é semente destruída,
é simulacro de vida,
é morte em forma diferente.

domingo, 25 de março de 2007

menina primavera


Primavera pequenina
dos meus sonhos cor de esperança
com flores na tua trança
foste, rosada menina,
o meu amor de criança!

Corríamos campos fora
eu era o teu cavaleiro
eu era sempre o primeiro
fui desde a primeira hora
o teu amor verdadeiro!

Hoje perdida no tempo
vives na recordação...
pequenina Primavera
não sou o menino que era
mas estás no meu coração!

segunda-feira, 19 de março de 2007

dia do Pai ausente


O Filho:

Pai, outro dia que passamos
tu sem mim e eu sem ti
tão distantes que nós estamos
mas estás aqui... e eu aí.

O Pai:

Eu não consigo encontrar-me
tu andas só e perdido
mas continuas a amar-me
e eu a ti... meu Filho querido.

sexta-feira, 9 de março de 2007

distância



Procuro-te no resto do meu sonho
que ficou parado clandestino
quando com o teu olhar quase tristonho
me pediste que voltasse a ser menino


Ansiosamente procuro o que restou
dos brinquedos perdidos de uma infância
parti cedo demais e o que não sou
cabe na tua mão cheia de distância

domingo, 25 de fevereiro de 2007

sem regresso



Larguei a tua mão cedo demais
Perdi-me num caminho sem regresso
E para não te ouvir gritar "Já vais?"
Virei a vida toda pelo avesso.


Perdido na saudade tu ficaste
Tentando ouvir-me a voz em cada esquina
Mas cada dia mais longe te afastaste
Perdida da minha mão a tua mão franzina.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

faltou-nos o tempo


para corrermos pelos campos fora

para nos abraçarmos tontos da canseira

para cantarmos à volta da fogueira

para nos deitarmos tarde, sem ter hora


para te contar todas as velhas histórias

que meu avô um dia me contou

para te deixar de presente as memórias

que trazia dentro daquilo que não sou


ficaste criança no tempo à minha espera

buscaste na noite o perfume de mim

deixaste lágrimas correr de uma quimera

nasceste no princípio do meu próprio fim

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

se não for tarde demais



quero dizer-te ainda as palavras
que me ficaram presas na garganta

quero contar-te dos meus sonhos breves
se ainda a minha voz no teu coração canta

será que ainda podes comigo percorrer
as areias da praia onde te vi crescer

será que posso dar-te ainda a mão
e não te deixar mais sem norte e sem razão

se for tarde demais, diz-me que vá embora
mas se ainda me esperas, perdoa-me a demora